SPQR

 

Sempre me perguntam quando vou falar de política.

A resposta costuma ser a mesma: quase nunca.


Não por falta de opinião. Tenho as minhas e não faço questão de escondê-las. O problema é outro. A política deixou de ser um espaço para o confronto de ideias e passou a ser um campeonato de torcidas. Hoje, qualquer crítica é interpretada como adesão ao lado oposto. Qualquer elogio vira declaração de fidelidade. O debate morreu soterrado pelos rótulos.


Ainda assim, algumas coisas merecem ser ditas.


Uma delas me inquieta há bastante tempo.


Quando foi que deixamos de eleger políticos para começar a canonizá-los?


No Brasil, já não basta discutir propostas. É preciso vestir uma camisa. Fala-se em lulismo, bolsonarismo e tantas outras variações. Na Argentina, peronistas, kirchneristas, mileístas. Em outros cantos do mundo surgem trumpistas, macronistas e uma infinidade de movimentos que carregam o sobrenome de alguém, como se uma nação inteira pudesse caber dentro de uma única personalidade.


Repare na mudança.


As ideologias desapareceram.


Os indivíduos permaneceram.


É um fenômeno curioso. Em vez de defender princípios, passamos a defender pessoas. O projeto de Estado perdeu espaço para o projeto de poder. O pensamento crítico foi substituído pela fidelidade incondicional.


Toda sociedade produz grandes líderes. Isso é natural.


O problema começa quando deixam de ser líderes para se tornarem dogmas.


Quando discordar vira pecado.

Quando criticar passa a ser heresia.

Quando qualquer erro encontra uma justificativa conveniente.

Quando qualquer mentira é reinterpretada como estratégia.

Quando qualquer abuso recebe o selo de "era necessário".


Nesse momento, a política deixa de ser racional.


Transforma-se em fé.


Não me refiro à fé religiosa.


Refiro-me à fé cega.


Àquela que dispensa provas, ignora fatos e rejeita qualquer evidência que ameace a imagem do ídolo.


A religião canoniza santos porque acredita na santidade.


A política canoniza políticos por conveniência.


São fenômenos diferentes, mas produzem um efeito semelhante: a suspensão do senso crítico.


A História conhece muito bem esse roteiro.


No século passado, uma das nações mais cultas, industrializadas e desenvolvidas do planeta decidiu enxergar um governante não como um homem, mas como uma figura providencial. O resultado transformou a Alemanha numa cicatriz permanente da civilização.


Não foi o primeiro caso.

Provavelmente não será o último.

Porque a idolatria nunca muda. Apenas troca de uniforme.


Pouco importa se o cargo é presidente, primeiro-ministro, chanceler, rei, príncipe ou emir.


Nenhum mandato confere infalibilidade.

Nenhuma eleição produz santos.

E nenhum governante merece seguidores incapazes de lhe dizer "você está errado".


Aliás, talvez a maior prova de respeito por um líder seja justamente a capacidade de criticá-lo quando ele se afasta do interesse público.


Quem aplaude tudo não apoia.


Adestra.


O problema ganha proporções ainda mais graves quando essa devoção atravessa a Praça dos Três Poderes e contamina justamente quem deveria funcionar como contrapeso.


O Legislativo existe para fiscalizar.

Existe para limitar.


Existe para impedir que qualquer governo, de esquerda, de direita ou de qualquer outro espectro, concentre poder além do necessário.


Mas o que se vê, com frequência, é outra coisa.


Deputados e senadores transformados em escudos humanos de seus líderes.


Projetos analisados conforme a assinatura de quem os apresentou, e não pelo mérito.


Discursos preparados para as redes sociais.


Comissões convertidas em palcos.


Sessões que lembram clássicos de futebol.


A política virou um Fla-Flu permanente.


Só que, nesse campeonato, a torcida paga ingresso sem querer.


E paga caro.


Enquanto parlamentares disputam narrativas, o cidadão continua esperando hospitais que funcionem, escolas que eduquem, estradas seguras, justiça eficiente, segurança pública e um Estado minimamente competente.


As vaidades seguem sendo alimentadas.

As redes sociais seguem produzindo heróis.

Os algoritmos seguem premiando o espetáculo.

E o povo continua aguardando o básico.


Talvez esse seja o retrato mais triste do nosso tempo.


Não faltam líderes.

Faltam estadistas.


Não faltam discursos.

Falta responsabilidade.


Não faltam seguidores.

Faltam cidadãos.


Tenho medo de que nossos legisladores, ocupados demais defendendo seus políticos de estimação, esqueçam por que aquelas cadeiras existem.


Esqueçam que nenhuma autoridade é maior do que a República.


Esqueçam que o mandato pertence ao povo, não ao governante.


Esqueçam o princípio.


Esqueçam a própria razão de ser das casas que ocupam.


Esqueçam...


SPQR.

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