A PORTA ABERTA - Ato I: A ameaça externa




Recentemente, o governo dos Estados Unidos decidiu classificar organizações criminosas latino-americanas como grupos terroristas.


A notícia provocou reações previsíveis.


Uns comemoraram.


Outros condenaram.


O que me chamou a atenção, porém, não foi a decisão de Washington.


Foi a reação de brasileiros que se apresentam como defensores intransigentes da soberania nacional.


Curiosamente, muitos deles aplaudiram uma medida que, ao menos em tese, amplia a margem para ações internacionais cada vez mais agressivas sob o argumento do combate ao terrorismo.


Não estou defendendo facções criminosas.


Não estou relativizando a violência que produzem.


Não estou sugerindo complacência com o tráfico de drogas.


Mas soberania não é um conceito que possa ser defendido apenas quando convém.


Ou ela vale para todos os países ou se transforma apenas em slogan eleitoral.


A história recente mostra que a classificação de grupos como ameaça internacional costuma ser utilizada para justificar operações, sanções, pressões diplomáticas e intervenções de diversas naturezas.


Nem sempre essas ações respeitam os limites que os próprios países envolvidos consideram aceitáveis.


É justamente por isso que a discussão merece atenção.


Quando um governo estrangeiro passa a definir unilateralmente quem representa uma ameaça global, abre-se uma porta perigosa.


Hoje o alvo pode ser uma organização criminosa.


Amanhã pode ser um governo.


Depois, uma instituição.


Mais adiante, qualquer grupo considerado inconveniente aos interesses de quem possui maior poder econômico, militar ou político.


Por isso me surpreende ver nacionalistas comemorando medidas que fortalecem a capacidade de intervenção de uma potência estrangeira.


Afinal, o nacionalismo não deveria começar pela defesa da autonomia do próprio país?


Ou será que o patriotismo moderno passou a funcionar como franquia?


Usa-se a camisa da seleção.


Agita-se a bandeira.


Recitam-se discursos sobre amor à pátria.


Mas, diante da possibilidade de interferência externa, muitos parecem dispostos a entregar aquilo que dizem proteger.


A soberania não é um tema de esquerda ou de direita.


É um tema de Estado.


Quem acredita que a independência nacional é importante deveria se preocupar sempre que qualquer potência, seja qual for sua bandeira, ampliar sua capacidade de agir além de suas fronteiras.


Porque a história ensina uma lição simples:


Portas abertas para os outros quase nunca permanecem sob o nosso controle.

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