Quando se fala em intervenções internacionais, muitos imaginam que tudo começou com Donald Trump.
Não começou.
Trump é personagem de uma história muito mais antiga.
A ideia de que uma grande potência possui o direito, ou a obrigação, de influenciar os rumos do mundo atravessa governos, partidos e gerações.
Republicanos fizeram isso.
Democratas também.
Mudam os discursos.
Mudam os slogans.
Mudam os ocupantes da Casa Branca.
A lógica permanece surpreendentemente semelhante.
Durante décadas, os Estados Unidos estiveram envolvidos, direta ou indiretamente, em conflitos e intervenções espalhados pelo planeta.
Vietnã.
Afeganistão.
Iraque.
Síria.
Líbia.
Paquistão.
Líbano.
Irã.
Colômbia.
Entre tantos outros exemplos que poderiam preencher páginas inteiras de um livro de História.
Cada episódio teve suas particularidades.
Cada governo apresentou suas justificativas.
Combate ao terrorismo.
Defesa da democracia.
Proteção dos direitos humanos.
Segurança internacional.
Algumas dessas razões eram legítimas.
Outras continuam sendo objeto de debate até hoje.
Mas existe um padrão difícil de ignorar.
As grandes potências raramente enxergam fronteiras da mesma forma que os países menores.
Enquanto uma nação comum precisa respeitar limites, uma superpotência frequentemente se sente autorizada a ultrapassá-los em nome de interesses considerados estratégicos.
Não é uma característica exclusivamente americana.
A História está repleta de exemplos.
Napoleão acreditou possuir uma missão continental.
Hitler acreditou possuir um destino histórico.
Stalin acreditou possuir um projeto universal.
Mao acreditou possuir uma verdade revolucionária.
Diversos governantes, em épocas diferentes, partiram da mesma premissa:
a convicção de que seus objetivos justificavam avançar sobre os demais.
A diferença é que os métodos evoluem.
No passado, enviavam-se exércitos.
Hoje, muitas vezes, enviam-se recursos, armamentos, inteligência, influência econômica e apoio diplomático.
A guerra tornou-se mais sofisticada.
Menos visível.
Mais conveniente.
Os custos políticos diminuíram.
As responsabilidades tornaram-se difusas.
Os mortos continuam existindo.
Mas já não aparecem necessariamente sob a mesma bandeira.
Talvez essa seja a maior transformação das últimas décadas.
O império não desapareceu.
Apenas aprendeu a usar luvas.
E talvez seja justamente por isso que se tornou mais difícil identificá-lo.
As potências modernas raramente se apresentam como impérios.
Preferem falar em estabilidade.
Cooperação.
Segurança.
Parcerias estratégicas.
A linguagem mudou.
A disputa por influência, não.
Enquanto isso, países menores seguem orbitando interesses alheios, muitas vezes acreditando estar exercendo plena autonomia quando, na verdade, apenas escolheram qual centro de poder desejam acompanhar.
A História ensina que toda potência acredita ser indispensável.
Também ensina que nenhuma delas permanece assim para sempre.

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