"Que país é este?"
A pergunta atravessa gerações.
Décadas depois, continua sem resposta.
Talvez porque o problema nunca tenha sido encontrar a resposta.
Talvez o problema seja encarar o espelho.
Vivemos um tempo curioso.
Nunca tivemos acesso a tanta informação.
Nunca foi tão fácil pesquisar.
Conferir.
Comparar.
Questionar.
E, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil pensar.
As redes sociais transformaram opiniões em identidades.
A divergência virou ofensa.
A dúvida virou fraqueza.
O adversário virou inimigo.
Em algum momento, deixamos de discutir ideias para defender tribos.
O fenômeno não pertence à esquerda.
Também não pertence à direita.
Pertence à natureza humana.
A necessidade de pertencer sempre foi mais confortável do que a obrigação de refletir.
Por isso tantos escolhem um lado antes mesmo de conhecer o assunto.
Primeiro vem a bandeira.
Depois vêm os argumentos.
Quando vêm.
O resultado é um país dividido por narrativas que frequentemente se parecem mais do que seus defensores gostariam de admitir.
Os grupos se enfrentam diariamente.
Trocam acusações.
Insultos.
Memes.
Ofensas.
Mas compartilham características semelhantes.
Ambos acreditam possuir a verdade definitiva.
Ambos enxergam o mundo através de filtros ideológicos.
Ambos tratam questionamentos como traição.
Ambos precisam de heróis.
Ambos precisam de vilões.
No fim, as duas manadas caminham convencidas de que seguem em direções opostas.
Talvez não percebam que avançam para o mesmo abatedouro.
A ausência de pensamento crítico produz um fenômeno perigoso:
pessoas que defendem ideias que não compreendem e combatem ideias que nunca estudaram.
Não há curiosidade.
Não há profundidade.
Não há disposição para revisar convicções.
Pensar exige esforço.
Torcer exige apenas entusiasmo.
Por isso a política brasileira se parece cada vez mais com uma arquibancada.
Os torcedores mudam.
Os gritos mudam.
Os uniformes mudam.
O comportamento permanece.
Enquanto isso, problemas reais continuam sem solução.
Educação.
Segurança.
Saúde.
Infraestrutura.
Produtividade.
Temas complexos demais para caber em slogans.
Talvez seja por isso que recebam tão pouca atenção.
Recordo-me de uma observação atribuída a Nelson Rodrigues.
Ele falava do "complexo de vira-lata".
A tendência nacional de nos considerarmos menores, inferiores ou incapazes diante dos outros.
Durante muito tempo achei exagero.
Hoje não tenho tanta certeza.
Porque o verdadeiro patriotismo não consiste em repetir frases de efeito nem em carregar bandeiras.
Consiste em conhecer o próprio país.
Entender sua história.
Reconhecer seus defeitos.
Valorizar suas virtudes.
E, principalmente, pensar com independência.
Sem tutores.
Sem ídolos.
Sem donos da verdade.
Por isso continuo fazendo a mesma pergunta.
Que país é este?
Talvez a resposta só apareça quando tivermos coragem de olhar para o espelho sem filtros, sem slogans e sem torcida organizada.
Até lá, continuaremos cobrando que o Brasil mostre a sua cara.
Sem perceber que ela esteve diante de nós o tempo todo.

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