O nome do Brasil e o silêncio do resto

 


Ontem, no Super Bowl, Bad Bunny disse “Brasil”. Bastou isso. Bastou uma sílaba estrangeira pronunciada com sotaque caribenho para que uma legião de analfabetos emocionais decretasse: “nos representou”.


Ninguém pareceu muito interessado em saber o que ele canta. Reggaeton, perreo, sampler de Daddy Yankee, ecos de Lorna — uma trilha sonora conhecida de quadris, álcool, submissões coreografadas e refrões fáceis. Para quem gosta de funk, talvez soe familiar; para quem gosta de pensar, soa vazio.


Ele tinha o mundo inteiro assistindo. Um palco que poucos mortais pisam. Um microfone capaz de atravessar continentes. E escolheu metáforas. Entregar um Grammy a um menino preso. Um gesto bonito, simbólico, instagramável. Mas inofensivo. Uma crítica que não fere ninguém, não nomeia ninguém, não compromete ninguém.


O curioso é que o mesmo artista que posa de consciência social construiu carreira cantando como a mulher deve ser submissa, desejável, descartável — tudo embalado em batidas dançantes que transformam machismo em produto exportável. Patriarcado com refrão chiclete.


Mas basta irritar Trump e pronto: canonização instantânea. Não importa o conteúdo, não importa a obra, não importa a contradição. Se incomoda o inimigo certo, vira herói. A régua moral agora é geopolítica, não ética.


No fundo, não se trata de Bad Bunny. Trata-se da fome. Uma fome imensa de ser visto, citado, lembrado. O brasileiro já não quer ser representado — quer ser mencionado. Nem que seja de passagem. Nem que seja no meio de uma letra que ninguém entende.


E assim seguimos: comemorando quando dizem nosso nome, mesmo que não saibam quem somos. Aplaudindo metáforas, enquanto o microfone — esse instrumento raro de verdade — continua sendo usado para cantar o mesmo de sempre, só que agora com verniz de engajamento.


O show passou. O nome ficou. O silêncio também.


R.Santi


#nfl #badbunny #eua #show #critica

Comentários