A fila da padaria estava longa e impaciente, como sempre.
Pessoas com pressa, celulares na mão, olhos no relógio.
Foi quando um homem entrou direto pela lateral e se colocou à frente de todos.
No começo houve apenas olhares.
Depois vieram os murmúrios.
Em seguida, os gritos.
— Ei, tem fila!
— Você acha que é melhor que os outros?
— Falta de respeito!
O homem tentou se explicar, mas já não importava. A cena tinha vida própria. A discussão cresceu, ganhou volume, nomes, ameaças. A fila deixou de ser fila e virou arena.
Então, do nada, uma voz atravessou o ar:
— Jesus te ama.
Ninguém viu quem falou.
Não veio de frente, nem de trás, nem de lado.
A frase simplesmente apareceu.
O efeito foi estranho.
Como se alguém tivesse desligado o som do mundo por alguns segundos.
Os que gritavam ficaram sem argumento.
O que furou a fila baixou os olhos, envergonhado, e fez menção de sair.
Foi quando a pessoa atrás dele segurou seu braço.
— Fica.
Não era ordem. Não era ameaça.
Era convite.
A fila se recompôs sozinha, sem acordo, sem juiz, sem vencedor.
Ninguém comentou o grito.
Ninguém procurou quem falou.
Mas, por alguns minutos, ninguém mais teve pressa.
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