Eram seis

 


Eram seis. 

Depois viraram três. 

Agora é um.


Não é matemática. 

É Brasil.


No começo, eram muitos. 

Muitos nomes, muitas vozes, muitas testemunhas. 

Depois vieram os silêncios, as versões, os recortes. 

Aos poucos, a história foi sendo editada — não como verdade, mas como conveniência.


Eram seis. 

Hoje é um processo enxuto, limpo, quase higiênico. 

Sem excesso de culpa. 

Sem barulho demais. 

Sem responsabilidade compartilhada.


A justiça também aprendeu a fazer dieta.


Começou gorda de indignação, 

terminou magra de consequências.


Não houve absolvição explícita. 

Houve algo mais sofisticado: 

desaparecimento.


Ninguém diz que não aconteceu. 

Só deixam de lembrar quem estava.


É assim que se fabrica a inocência moderna: 

não se prova que não fez, 

apenas se dissolve quem viu.


Eram seis. 

E, curiosamente, ninguém sabe explicar exatamente 

em que momento a sociedade deixou de contar.


Talvez quando ficou desconfortável. 

Talvez quando ficou famoso demais. 

Talvez quando a verdade começou a atrapalhar a narrativa.


No fim, sobra um. 

Sempre sobra um.


Um nome para carregar o peso simbólico. 

E cinco fantasmas para carregar o peso real.


Não é sobre números. 

É sobre método.


O método de transformar escândalo em estatística. 

Violência em detalhe. 

Responsabilidade em ruído.


Eram seis. 

E isso não é memória: 

é acusação.


Porque toda vez que um caso encolhe, 

não é a verdade que se ajusta,

é a justiça que aprende a caber no bolso de alguém.


R.Santi


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