Entre o silêncio e o foda-se

 



"Porque soy mi propio esclavo cuando digo lo que pienso."

— Jorge Rojas


Existe um cárcere dentro de cada um de nós. Nem sempre é visível.

Ele se constrói com palavras engolidas, com gritos sufocados para manter a paz alheia, com a diplomacia excessiva de quem aprendeu cedo demais que ser sincero custa caro.


Às vezes, somos escravos do que dizemos.

Mas também, e principalmente, do que calamos.


Há um ponto em que o silêncio deixa de ser virtude e se torna veneno.

Ele já não evita conflitos; apenas adia a explosão.

O peito aperta.

A mandíbula trava.

Os pensamentos giram como tempestade sem vento.

Você engole seco. Finge. Sorri.

Mas por dentro, algo arde.


E é aí que nasce a segunda palavra mais importante da vida: foda-se.


Porque o foda-se é cura quando o silêncio já não serve.

Não é raiva pura, nem grosseria desmedida —

é reação de quem suportou demais.

É o passo que parece em falso, mas é o primeiro passo certo.

Um basta.

Uma fronteira traçada no chão da alma.

Um grito abafado que, quando finalmente liberto, soa como música de alívio.


A vida é esse fio tênue entre calar e explodir.

Entre aguentar e mandar para o inferno.

A cada dia decidimos: engolimos mais um sapo ou soltamos a alma?

Fingimos mais uma vez ou nos despimos das amarras?

Protegemo-nos em silêncio ou nos salvamos no foda-se?


Entre a palavra que nunca dizemos

e aquela que cuspimos tarde demais,

há um ponto de equilíbrio: o discernimento.


A sabedoria de calar quando não há o que construir.

E a coragem de falar quando tudo em nós pede socorro.


Eu já fui silêncio demais.

Já adoeci por guardar.

Já perdi por falar.


Hoje aprendi que não há fórmula.

Só escolha.


E às vezes, a escolha certa é olhar para o mundo, respirar fundo…

e mandar tudo à merda... 

com elegância.

Comentários