A empatia que se cobra

 


A empatia, hoje, não é virtude.  

É moeda. Circula. Se negocia. Se cobra.


Vem embrulhada em discurso bonito, mas carrega recibo invisível:  

eu te ajudo, mas não esqueça que te ajudei.  

eu te defendo, mas já te condenei por dentro.  

eu te amo, mas sei exatamente onde te julgar.


Existe uma caridade que humilha.  

Um cuidado que vem com cobrança.  

Uma defesa que nasce do rancor, não da lealdade.  


Não é acolhimento

é contabilidade emocional.


Errar, nesse mundo, não dói pelo erro.  

Dói pelo tribunal que se instala depois:  

amigos viram juízes, conselhos viram sentenças, afeto vira poder.


A empatia moderna exige comportamento adequado, narrativa aceitável, sofrimento bem apresentado. Quem não performa a própria dor do jeito certo perde o direito de ser compreendido.


Fala-se muito em saúde mental, mas quase nada em misericórdia.  

Fala-se muito em escuta, mas tudo é atravessado por opinião.  

O amor fraternal virou um amor pedagógico: ama-se ensinando, corrige-se punindo, ajuda-se lembrando a dívida.


Talvez a forma mais rara de empatia seja a mais simples:  

a que não cobra, não educa, não ameaça.  

A que não usa a dor do outro como argumento.


Porque quando a empatia vem armada de julgamento,  

ela deixa de ser cuidado  

e vira só outra forma de violência,

a mais perigosa de todas: a que se apresenta como virtude.


Isso não é empatia.  

É só brutalidade tentando se passar por afeto.


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