QUANDO AS CERTEZAS MORREM



Sem jogos, sem máscaras.

Só a nudez da alma, que chega quando já não há energia para fingir.

A gente vai abrindo mão das certezas porque a vida, com o tempo, se encarrega de arrancá-las. Não é um gesto voluntário. É desgaste. É queda. É repetição de erros que desmentem qualquer convicção anterior. No início, perder certezas dói. Dói porque crescemos acreditando que elas nos sustentam, que dão chão, direção, sentido. Depois, surpreendentemente, a dor cede. E o vazio que fica não assusta tanto quanto parecia.

Chega um momento em que não ter certeza de nada já não faz falta. Pelo contrário: alivia. Tira um peso. Não precisar ter respostas prontas se transforma em uma forma silenciosa de paz. A vida deixa de ser um tribunal e passa a ser apenas um percurso possível, com falhas, desvios e pausas necessárias.

É nesse ponto que paramos de julgar. Não por bondade, não por evolução moral, mas por cansaço. Cansaço de apontar caminhos que nós mesmos nunca tivemos coragem de seguir. Cansaço de exigir coerência de quem também está apenas tentando não se perder. Cansaço de medir a vida alheia com réguas que quebraram dentro da nossa.

Aos poucos, o mundo deixa de ser dividido entre certo e errado. O que existe passa a ser aquilo que cada um conseguiu viver sem enlouquecer. As escolhas deixam de ser analisadas como virtudes ou falhas e passam a ser entendidas como tentativas. Algumas mais conscientes, outras nem tanto, mas todas humanas.

No fim, tudo se revela simples e brutal ao mesmo tempo. Importa ter paz. Importa ter sossego. Importa viver sem medo constante de não corresponder, de não agradar, de não vencer. Importa encontrar, mesmo que em gestos pequenos, algo que realmente alegre o coração — e ter coragem de fazer isso sem pedir permissão.

O resto é ruído.

Barulho que o tempo, cedo ou tarde, ensina a ignorar.

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