Meu pai era pescador.
Meu avô também.
Meu bisavô, idem.
Quando tio Wagner vinha ao Rio, ele ia pescar na Baía de Guanabara com meu pai, no bote Boto Rosa.
Era coisa deles.
Ritual.
Anos depois, passei férias em Angra dos Reis na casa dos meus padrinhos.
Tio Wagner e Jorge “Piranha”, físico nuclear e boca suja, eram vizinhos.
Fomos ao cais pescar.
Chovia.
Jorge passou o tempo todo gritando:
— Tá molhando meu cu!
Tenho certeza! Foi isso que espantou os peixes....
Eles eram dois senhores da Eletronuclear que sabiam pescar como ninguém.
Eu era um adolescente sem ideia do que fazer.
Mesmo assim, lancei o anzol e, contra todas as probabilidades, peguei o primeiro peixe.
Entrei em pânico.
E resolvi do pior jeito possível: dei um chute com vontade.
O peixe virou ave por um segundo.
Sumiu.
E eu gritei de dor: abri o dedão do pé.
Silêncio.
Depois, a gargalhada.
Jorge quase caiu do cais.
Despejou palavrões, me declarou oficialmente o pior pescador da linhagem.
Tio Wagner não disse nada. Só ria.
Chuva, caipirinha cheia de formigas, pé sangrando…
Rimos mais.
Eu não era meu pai.
Nem meu avô.
Nem meu bisavô.
Mas naquele dia, com o peixe chutado e os xingamentos, eu ganhei algo melhor:
uma história.

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